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Tudo bem mais ou menos

Martha Medeiros

De uns tempos para cá, tenho reparado que as pessoas estão compartilhando uma mesma sensação em relação à vida. São pessoas bem resolvidas. Quase todas casadas. Têm emprego. Os filhos não chegam a dar muito problema. A saúde está ok. Estão entre os 30 e 50 anos, ainda têm estrada pela frente. Não se sentem deprimidas. Se você perguntar como elas estão, elas responderão que estão bem. Mas...

Este “mas” é o massacre da serra elétrica. É o que divide essas pessoas em duas: a metade que está bem e a metade que está uivando pra lua.

A metade de nós que está bem não se entende com a metade de nós que reclama da vida. O pensamento é o mais ou menos este: com tanta gente sofrendo violência lá fora e carecendo de quesitos básicos pra felicidade, como é que eu, que estou numa boa, posso me sentir inquieto? Parabéns, você está vivo.

São tempos sufocantes, esses. Estamos proibidos de envelhecer, não podemos falhar, não podemos usar o celular dentro do carro, não podemos transar sem camisinha, não podemos ficar fora da moda, não podemos falar apenas um idioma, não podemos dar uma sumida, não podemos comer açúcar, não podemos fumar, não podemos falar com estranhos, não podemos reagir: nem aos assaltos à mão armada nem aos assaltos do coração.

A cobrança diária de sucesso pessoal e profissional, cujas regras foram estabelecidas pelo Sr. Mercado e pela Sra. Sociedade, nos aprisionam de tal maneira que transgredir passa a ser uma ideia tentadora. Mas, para transgredir, é preciso liberdade, e liberdade, segundo alguns filósofos, não é pra qualquer um: poucos lhe podem suportar o vazio.

Então vivemos entre a cruz e a espada, cumprindo os rituais todos que, dizem, conduzem ao reino dos céus, e ao mesmo tempo seduzidos por uma vida de incertezas, por uma vida repleta de acidentes existenciais, de acontecimentos tão intensos que poderiam trazer até algum desconforto, mas que não deixam dúvida de que estamos realmente vivinhos da silva, mais vivo do que aquele sujeito que ganha mais do que nós, está casado com uma mulher mais bonita do que a nossa e que estranhamente não pára de bocejar.

A agonia deste novo século é que ninguém ousa um novo caminho, ninguém consegue juntar suas duas metades, ninguém está totalmente satisfeito. Nem mesmo aqueles que estão.


Domingo, 15 de setembro de 2002.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.